DESPORTO, LITERACIA FÍSICA E VIDA BOA

É já em breve – em julho deste ano – que Coimbra receberá a 4ª edição dos Jogos Universitários Europeus, com organização conjunta da Universidade, Câmara Municipal e Associação Académica. Esperam-se cerca de 5000 jovens, de dezenas de países europeus, durante 2 semanas, a animarem o espírito e a prática desportiva, numa cidade em que a tradição também assenta numa relação forte entre a universidade e o desporto. Embora deslocado do tempo, ainda hoje ouvimos a designação de “equipa dos estudantes” quando se fala da Académica.

Queremos e esperamos que este seja um evento bem-sucedido, que faça história. No entanto, começamos a recear que seja mais um trunfo desbaratado. Nada se vê, nada se fala no espaço público, nada se aposta na intervenção comunitária de base. Nos registos motivacionais do município encontramos apenas referências oportunistas de ganhos da hotelaria e restauração, na lógica do turismo “bacoco” já habitual. E questionamos:

– Não deveria ser esta uma oportunidade para elevar o desporto como ferramenta de vida sã, não apenas na comunidade estudantil, mas em toda a sociedade?

– Não poderia ser este evento um projeto de todos, com envolvência alargada e multiplicada em dinâmicas mais enraizadas nas gerações mais jovens?

– Não seria de tomar estes Jogos como um ponto de partida para uma política democrática do desporto e da literacia física, construindo uma rede municipal que ligasse e suportasse todos os agentes capazes de uma oferta de atividades, numa lógica de cobertura global e cooperativa?

Hoje, todos damos conta, há uma maior consciência dos benefícios e uma maior apetência em relação à atividade física, mas as respostas ficam fechadas nas escolas – insuficientes e diminuídas no conjunto dos currículos – ou privadas em “clubes” e “ginásios”- luxos e hedonismos distantes do conceito de “vida boa”.

A política do município não pode ficar-se pelos apoios mais ou menos generosos às associações ou aos eventos desportivos, mas deve definir-se no quadro de uma aposta firme no bem-estar das suas populações, com investimentos estratégicos e coerentes que pensem os futuros. Coimbra não merece apenas grandes eventos pontuais e pontuados com bandeiras de festa passageira. Coimbra aguarda que o seu rio e as suas margens, os seus parques e jardins, os seus estádios e campos desportivos chamem a todos e de todos se encham, em rotinas de vida ativa e de convivência sã, no bom usufruto do espaço público e na construção de uma cidadania feliz.

Há caminho neste sentido? Se dirigirmos o olhar para o Estádio de Taveiro e para o Estádio Universitário, dizemos não. Se nos quedamos no Parque Verde ou nas margens do rio, ainda não… Se atentarmos nos percursos interrompidos da ciclovia, duvidamos. E quando se encerrarem os Jogos Universitários?

No dia 24 de abril, a Assembleia Municipal votou a reintegração de Coimbra na Rede Portuguesa de Municípios Saudáveis. Esperemos que tal contribua para atinar no caminho certo e não apenas mais um selo para exibir.

 

Graça Simões, Líder da bancada da Assembleia Municipal do Movimento Cidadãos por Coimbra (CpC)

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