FIOS DO TEMPO E DE DESENVOLVIMENTO

É na História e na Memória que legitimamos a celebração da Cidade. Vestimos e trazemos à rua um imaginário de soberanos empreendedores e piedosos, numa posição desnivelada de género e de poder, só sublimada pela santidade – o rei, austero e absoluto que multiplica a riqueza; a rainha, piedosa e perspicaz, que a partilha com o povo. Este imaginário está ainda muito sedimentado nas nossas vidas e a distância de séculos nem sempre nos habilita a ver melhor e mais longe. Mas podemos sempre puxar o fio que mais nos ilumina. Hoje pode bem ser o de uma rainha  que escolheu Coimbra para se eternizar, mulher de vontades, que não se deixou ensombrar por um D. Dinis, que terá feito tudo quanto quis. É um dos fios que teremos de continuar a puxar, este da igualdade de género, e o exercício da administração local pode e deve dar o exemplo.

Podemos também puxar o fio da questão social e da miséria da caridade, que dá mas deixa sempre sem nada, sobretudo sem dignidade e direitos. Governar é distribuir riqueza, por dever e direito e as políticas sociais não podem reduzir-se ao distribuir de migalhas, mas antes articular-se e ampliar-se em estratégias de real justiça social.

Com um terceiro fio, podemos pensar a cidade, esta que veneramos. Estava em embrião nesse distante séc. XIV esse sentido de urbano que se veio a opor a rural, enquanto centro de mais oportunidades. Mas a sua riqueza vinha-lhe dos arredores onde a natureza era pródiga e as pessoas se afadigavam a aproveitá-la. Ora Coimbra, na sua recuperação identitária, não pode prender-se ao modelo que fez as grandes metrópoles, querendo apenas encher de gente as suas casas e ruas; a sua identidade passa pelo ser pequena, com todas as vantagens em qualidade de vida, mas solidária e conectada com todo o território das suas 18 freguesias, apostada numa relação mais respeitosa com a natureza; é na medida desta sua aposta global de desenvolvimento que estará a medida da sua grandeza; é neste ativar de sinergias económicas e culturais e com dinâmicas inovadoras, limpas de provincianismo, que se poderá tornar grande a nossa Cidade. Uma Capital, da cultura, por exemplo, tem que investir nestas ligações e dinâmicas para se afirmar. Atrair o povo apenas em eventos pontuais, como as festas da cidade, não é suficiente para mostrar e, sobretudo, difundir cultura. É preciso criar necessidades, sedimentar rotinas, estimular hábitos.

Um último fio prendemo-lo à participação cidadã. Se nas retóricas já não se admitem súbditos e suseranos, nas práticas continuamos a admiti-los e até a promovê-los. Nem a democracia formal e representativa, nem bons instrumentos como o Orçamento Participativo garantem a mudança da liderança fechada e autocrática; só o reconhecimento de que as boas ideias não são sempre as das maiorias; só a inteligência para semear o diálogo e fazer pontes.

Celebrar a cidade e a sua memória exige que lhe acrescentemos futuros. Que todos a isso nos entreguemos. Com urgência e firmeza.

 

Graça Simões, líder de bancada do CpC na AM.

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