AFUNILAR VISÃO, NEGAR A RAZÃO 

Maternidade em Coimbra, o indicador exemplar

 

No debate promovido pelo CpC no passado dia 22 de outubro, no Auditório da Escola Superior de Enfermagem, para discutir a questão da localização da nova Maternidade de Coimbra, apesar do clima absolutamente positivo e exemplar de participação cidadã, ficou a pairar um incómodo maior que não deve ser ignorado.

Todas as vozes foram ouvidas respeitosamente, incluindo esta a que nos queremos referir – apesar de ser a única que fazia ecoar agitação e rumor de desacordo – mas pondo de lado a pessoa, o cargo ou função e até a pouca eficácia do discurso, queremos deter-nos na lógica que o sustenta e que nos parece muito preocupante. Falamos, é claro, da voz da Administração dos CHUC, o Dr. Fernando Regateiro.

Preocupante, antes de tudo, porque não integra o diálogo e se entrincheira numa defesa rígida de uma ideia imutável – o dinheiro é pouco e fica muito mais rentável no mesmo monte. Depois, porque recorre à estratégia da repetição e dos exemplos quase caricatos – as melhorias, muitas, podem ver-se nas camas novas adquiridas, nas escadas de segurança instaladas… ou então em muitos números, arrumados como dá mais jeito.

Mas preocupante, sobretudo, porque se percebe que não há ideia, nem estratégia, nem necessidade dela. A palavra de ordem é concentrar, negando todas as evidências da prática e da melhor e mais atual teoria das organizações que prova que, a partir de determinada dimensão, a eficácia e eficiência se invertem. A grande escala não tem só prejuízos sociais, mas também claramente económicos. Muito se perde nas cadeias de comando, nas roldanas de processos, na gestão de recursos, nas decisões cegas que não respondem aos problemas concretos. É assim na Educação. É assim na Saúde. É assim em todos os serviços com pessoas e para pessoas.

Esta ideia de que só o grande prestigia, só aos que se sentem pequenos pode convencer. Esta visão simbólica está já fora de tempo e ninguém poderá afirmar que Coimbra e a sua região ganham “estatuto” com a concentração num único e grande hospital. “Estatuto” podem ganhar alguns poucos a olhar dos topos, mas a Cidade e a Região perdem, ficando ainda mais reféns de oligarquias e de redes muito interesseiras de influências.

Sem nos determos nas questões concretas da instalação da nova maternidade, a que esta lógica insiste em chamar “hospital”, como se a gravidez e o parto de doenças se tratassem, queremos apenas salientar que é urgente travar esta desumanização do Serviço Nacional de Saúde, em que os dados em jogo são números e não pessoas, em que o grande engole o pequeno, em que tudo é plano e indiferenciado. Como ali bem expôs uma voz iluminada pelo saber e experiência, nascer não é só um ato médico, a maior parte dos casos, felizmente, um ato simples. Nascer é toda uma experiência única, de alegria, que exige um espaço qualificado de profissionalismo, mas também de acolhimento humano, confortável e caloroso.

Naquele auditório, em que todas as outras vozes, independentemente dos enquadramentos partidários, traziam pessoas dentro, esta do Dr. Regateiro ignorava-as. E perguntava-me eu – mas por que razão tem que ser esta a decidir?

 

Graça Simões

Líder do Movimento CpC na Assembleia Municipal de Coimbra

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